IA nas artes: por que a resistência é tão forte, e o que cada lado está defendendo

Out 2026 · 5 min de leitura

A inteligência artificial já faz parte do dia a dia de estúdios de cinema, gravadoras e ateliês, mas ela ainda encontra certa resistência do mercado e público. Antes de decidir quem tem razão, vale entender o que cada lado está defendendo, inclusive as perguntas que o direito e a tecnologia não respondem sozinhos.

Quadro auto-retrato de Vincent Van Gogh

É comum resumir a discussão como “os artistas estão `contra o futuro”. Essa leitura deixa de fora o essencial: a maior parte das objeções não é sobre a tecnologia em si, e sim sobre como ela foi construída, quem lucra com ela e o que significa chamar algo de arte. O debate tem três pontos de vista que raramente conversam: criadores, indústria e público.

Os criadores: consentimento, trabalho e identidade

Consentimento. Em janeiro de 2023, três artistas visuais abriram um dos primeiros processos contra empresas de IA, alegando que suas obras treinaram os sistemas sem autorização. O caso hoje inclui outros autores, quatro empresas e uma audiência de julgamento sumário marcada para fevereiro de 2027. Mais do que jurídico, o incômodo é a sensação de ter entrado num projeto sem ser consultado.

Trabalho. Atores de games iniciaram uma greve em 2024 porque as negociações travaram em torno de consentimento e compensação pelo uso de réplicas por IA. A greve durou 11 meses e terminou com um acordo aprovado por 95,04% dos votos, em julho de 2025. Em Hollywood, o contrato de 2026, ratificado em junho por 91,42% e válido até 2030, só permite usar intérpretes de IA quando eles trouxerem “valor adicional significativo” em relação a um ator de verdade ou a seu avatar digital. Parte do sindicato avalia que isso limita pouco os estúdios.

Identidade. Voz, rosto e estilo autoral são o que há de mais pessoal numa obra. Artistas alegam, por exemplo, que seus nomes apareceram numa lista de estilos que um gerador de imagens se dizia capaz de reproduzir. Para muita gente, estilo não é um dado: é uma assinatura.

A indústria: contratos num terreno instável

Estúdios e gravadoras também têm razões legítimas: custo, escala, novos formatos. E o setor está dividido, mudando de posição o tempo todo. A Disney processou a Midjourney em junho de 2025 e, meses depois, anunciou uma parceria com a OpenAI, que acabou desfeita em março de 2026, quando a OpenAI encerrou o Sora e nenhum dinheiro chegou a ser transferido.

Na música, a Warner fez acordo com a Suno e, em setembro de 2026, a empresa lançou um modelo baseado em catálogos licenciados. Universal e Sony responderam com um novo processo, chamando o modelo de fruto da mesma árvore envenenada.

No Brasil, o Marco Legal da IA (PL 2338/2023) foi aprovado no Senado em 10 de dezembro de 2024 e prevê direito de recusa ao uso de obras no treinamento, remuneração dos titulares e informação sobre os conteúdos usados. Na Câmara, o relator indicou que a votação fica para depois das eleições de outubro.

Mas, afinal, isso é arte?

As leis já tomaram uma posição parcial. No Brasil, autor é a pessoa física que cria a obra e, nos Estados Unidos, obras produzidas inteiramente por IA não podem ser registradas, com proteção proporcional à contribuição humana identificável. Ou seja, a lei trata a presença humana como critério. Mas ela não responde à pergunta que mais divide as pessoas: o que faz de algo uma obra de arte?

Há ao menos três respostas sérias.

Arte como expressão de uma vida. Para quem pensa assim, uma obra comunica a experiência de alguém que sentiu, arriscou e escolheu. Um sistema que recombina padrões não viveu nada, e por isso entregaria imagem, mas não expressão.

Arte como ofício. O valor está no tempo, na técnica e nas decisões acumuladas. Sob esse olhar, gerar uma imagem em segundos pula justamente a parte que fazia da obra uma conquista.

Arte como encontro. A obra se completa no olhar de quem a recebe. Se emociona, importa pouco a ferramenta. A fotografia foi acusada, no século XIX, de ser mecânica demais para ser arte, e Duchamp levou um mictório a uma exposição em 1917. A história lembra que as fronteiras da arte já foram empurradas por tecnologias e gestos que pareciam um insulto.

A comparação histórica ajuda, mas não encerra a conversa, porque a fotografia não foi treinada com o trabalho de outros fotógrafos. Parte da resistência de hoje mistura as duas coisas: o que é arte e quem foi consultado.

Daí vem a segunda pergunta, ainda mais sensível: quem usa IA pode se chamar de artista? Para alguns, sim, pois escolher, dirigir, iterar e editar também são atos criativos, como na arte conceitual. Para outros, “artista” é um título que carrega ofício, trajetória e pertencimento a uma comunidade, e estender o termo sem critério esvazia algo conquistado. São duas ideias legítimas do que o nome significa.

O público: a obra como conversa entre pessoas

Muita gente rejeita uma obra apenas por saber que houve IA, e isso não é preconceito vazio. Para esse público, o valor de uma obra está em saber que alguém do outro lado quis dizer aquilo. Outros não veem diferença se o resultado os emociona. As duas atitudes convivem e, provavelmente, vão continuar convivendo. O ponto comum é que ambas dependem de saber o que está sendo oferecido, e é aí que o debate deixa de ser só filosófico.

Quando a pergunta chega ao produto

Tudo o que vimos até aqui pode parecer distante de quem escreve software. Não é. Cada posição desse debate, cedo ou tarde, vira uma decisão de produto.

Quem acredita que o processo faz parte da obra vai querer saber como ela foi feita, e isso pede um rótulo claro de uso de IA. Quem defende consentimento vai querer um mecanismo de recusa e um registro de onde os dados vieram. Quem pede remuneração vai querer rastrear quem contribuiu com o quê. E o público, que ora rejeita e ora aceita a IA, só consegue escolher se alguém tornar essa informação visível.

Na hora de construir, nada disso é abstrato: é campo de formulário, metadado, trilha de auditoria, botão de recusa. Essas escolhas são feitas por times de produto e engenharia, muitas vezes sem artistas, juristas ou filósofos na sala. Por isso vale que quem constrói ouça esse debate antes de decidir o que entra no produto. A Espresso faz parte da AIM Global, aliança da ONU para a indústria, com o compromisso público de desenvolver IA responsável, inclusiva e sustentável. Perguntas como as deste texto são o tipo de coisa que esse compromisso precisa responder na prática.

Talvez a pergunta final não seja se a IA é arte, mas quem participa das decisões que definem como ela entra nas artes. Quem cria, quem constrói e quem assiste têm algo a dizer, e a conversa fica melhor quando acontece junto.

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Seu produto com IA está pronto para essas perguntas?

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